O cenário da medicina no Brasil é marcado por um paradoxo curioso, mas revelador: embora as rendas médias para médicos nas regiões interiores do país sejam mais altas do que nas capitais, a maioria dos médicos ainda prefere trabalhar nas grandes cidades. Esse fenômeno é ilustrado pelos dados do Physician Quality of Life Survey 2025 (Afya Research & Innovation Center), que evidenciam um quadro de desequilíbrio na distribuição de médicos no Brasil.
Dados de rendimento: o interior paga mais, mas a capital atrai mais médicos
O levantamento revela uma realidade que, à primeira vista, pode parecer contraditória:
| Região | Capitais | Interior | Diferença |
|---|---|---|---|
| Norte | R$ 21.357 | R$ 24.459 | +15% |
| Nordeste | R$ 18.600 | R$ 22.253 | +20% |
| Centro-Oeste | R$ 20.961 | R$ 24.318 | +16% |
| Sudeste | R$ 20.362 | R$ 20.460 | ≈ 0% |
| Sul | R$ 19.640 | R$ 21.982 | +12% |
Os dados mostram que, em todas as regiões do país, os médicos no interior ganham mais do que os que atuam nas capitais. No entanto, essa vantagem financeira não tem sido suficiente para atrair médicos em número suficiente para suprir a demanda crescente nas áreas rurais ou mais afastadas dos centros urbanos. A principal razão para essa discrepância está na escassez de profissionais nas regiões interioranas, o que resulta em oferta salarial mais alta, com salários 15% a 20% superiores aos oferecidos nas capitais.
Por que o interior paga mais?
A resposta está na escassez de médicos. Com menos profissionais disponíveis por habitante, o mercado local de saúde no interior é forçado a oferecer salários mais elevados para atrair e reter os médicos. Além disso, hospitais e prefeituras do interior têm se utilizado de estratégias como bônus, moradia e ajuda de custo para garantir que médicos aceitem essas vagas. No entanto, esse benefício financeiro tem seu preço emocional e profissional.
O outro lado do interior: desafios e custos emocionais
Embora o salário no interior seja mais atraente, a qualidade do trabalho deixa a desejar em muitos aspectos. Os médicos que aceitam trabalhar em áreas rurais enfrentam condições adversas, como:
- Estruturas precárias, com poucos recursos diagnósticos e limitadas opções de tratamento.
- Vínculos frágeis, com falta de estabilidade no emprego, ausência de planos de carreira e dificuldades em assegurar um futuro profissional previsível.
- Jornadas extensas e a sensação de isolamento, especialmente em localidades distantes dos centros urbanos.
Esses fatores contribuem para um alto turnover de médicos no interior, com muitos profissionais voltando para as capitais depois de um tempo. A remuneração alta pode não ser suficiente para compensar as dificuldades emocionais e profissionais, o que gera um ciclo de insatisfação e abandono das áreas rurais.
Por que os médicos preferem as capitais?
Nas capitais, embora a renda possa ser um pouco mais baixa, os médicos encontram vantagens significativas, como:
- Rede de formação contínua, com opções de residência, fellowships, congressos e programas de atualização que garantem maior qualificação profissional.
- Hospitais estruturados e equipes multidisciplinares, o que proporciona um ambiente de aprendizado constante e maior desenvolvimento da carreira.
- Previsibilidade de carreira, com vínculos institucionais sólidos, mais oportunidades para ascensão e estabilidade profissional.
- Qualidade de vida urbana, que inclui acesso a melhores serviços, opções de lazer, cultura, educação de qualidade para os filhos e uma infraestrutura urbana mais robusta, que é atraente não só para o médico, mas também para sua família.
A decisão entre interior e capital: mais que uma escolha financeira
A escolha entre trabalhar no interior ou nas capitais vai além de uma simples decisão financeira. Ela envolve aspectos de qualidade de vida, segurança emocional, oportunidades de crescimento profissional e infraestrutura. O médico que decide ir para o interior precisa estar disposto a enfrentar desafios, mas, para isso, precisa de suporte institucional, qualidade nas condições de trabalho e uma gestão de carreira mais robusta.
Conclusão: O Brasil precisa repensar a distribuição de médicos
O grande desafio do Brasil não é apenas atrair médicos para o interior; é criar condições para que esses profissionais queiram permanecer. O governo e as instituições de saúde precisam repensar a distribuição de médicos no país e investir em infraestrutura, qualificação profissional e valorização da carreira médica no interior.
A valorização do médico generalista, um elo essencial no atendimento à saúde da população, também deve ser uma prioridade. Para os advogados que atuam no direito médico, essa questão se reflete não apenas nas condições de trabalho e nos contratos de prestação de serviços, mas também no direito à qualidade de vida, formação contínua e previsibilidade para os profissionais.