O Senado Federal aprovou recentemente o Projeto de Lei que institui o Estatuto dos Direitos do Paciente, uma proposta que busca organizar e fortalecer direitos já existentes na legislação brasileira, além de consolidar princípios éticos fundamentais na relação entre médico e paciente.
Embora ainda dependa de sanção para entrar definitivamente em vigor, o texto já sinaliza uma mudança importante: o paciente passa a ocupar uma posição ainda mais ativa e protagonista dentro do cuidado em saúde.
Mais autonomia para o paciente
Um dos pilares do novo estatuto é o reforço da autonomia do paciente, princípio que já existe na prática médica, mas que agora ganha maior destaque legal.
Com a nova norma, o paciente:
- Pode aceitar ou recusar procedimentos médicos, mesmo que recomendados
- Tem direito a informações claras, completas e acessíveis sobre diagnóstico, riscos e alternativas de tratamento
- Pode indicar um representante para tomar decisões em seu nome
- Passa a ter maior controle sobre o próprio tratamento
Esse movimento acompanha uma tendência internacional de valorização do chamado consentimento informado, que deixa de ser apenas um documento e passa a ser um verdadeiro processo de comunicação.
Direitos que ganham mais força
O estatuto também reforça e amplia direitos que já eram reconhecidos de forma dispersa no ordenamento jurídico e em normas éticas:
- Direito a acompanhante durante atendimentos e internações, conforme o caso
- Acesso integral ao prontuário médico
- Possibilidade de buscar segunda opinião médica
- Atendimento com qualidade, segurança e respeito à dignidade humana
- Proibição de qualquer forma de discriminação no atendimento em saúde
Na prática, o objetivo é tornar o cuidado mais transparente e centrado no paciente.
O impacto direto na prática médica
Apesar de ampliar direitos do paciente, o estatuto não deve ser visto como uma ameaça ao exercício da medicina, mas sim como um aumento do nível de exigência na relação profissional.
Isso porque ele reforça três pilares fundamentais:
1. Comunicação clara
O médico precisará explicar de forma mais objetiva e compreensível:
- Diagnóstico
- Riscos
- Benefícios
- Alternativas de tratamento
2. Documentação adequada
O prontuário passa a ter ainda mais relevância, sendo essencial:
- Registrar condutas
- Formalizar consentimentos
- Demonstrar a tomada de decisão clínica
3. Transparência na conduta
A prática médica precisa estar cada vez mais alinhada com:
- Ética
- Evidência científica
- Respeito à decisão do paciente
Atenção: aumento de responsabilidade
Um ponto que merece destaque, e que muitos profissionais ainda não perceberam, é que o estatuto não cria apenas direitos, mas também amplia responsabilidades.
Isso porque, ao reconhecer formalmente esses direitos, qualquer violação pode gerar consequências:
- Responsabilização civil (indenizações)
- Processos éticos nos Conselhos de Medicina
- Questionamentos judiciais mais estruturados
Além disso, o texto reforça a ideia de que falhas na assistência podem ser interpretadas sob a ótica de violação de direitos fundamentais, especialmente quando há desrespeito à dignidade, à informação ou à autonomia do paciente.
O que muda na prática?
Na prática, o estatuto não cria uma medicina “nova”, mas eleva o padrão da medicina que já deveria existir:
- Menos decisões unilaterais
- Mais diálogo com o paciente
- Mais registro e organização
- Mais segurança jurídica
Ou seja, a medicina continua técnica, mas agora precisa ser ainda mais comunicada, documentada e transparente.
Conclusão
O novo Estatuto dos Direitos do Paciente representa um avanço importante na organização do sistema de saúde brasileiro. Ele fortalece a autonomia do paciente, amplia garantias e traz mais clareza para a relação médico-paciente.
Para o médico, o impacto é direto:
não basta apenas saber fazer, é preciso explicar, registrar e comprovar.
Em um cenário de crescente judicialização da saúde, essa mudança reforça um ponto essencial:
a boa prática médica hoje não é apenas técnica, é também ética, comunicativa e juridicamente segura.