A formação de médicos no Brasil passou por uma expansão acelerada nos últimos anos, com o aumento do número de faculdades de medicina, especialmente no setor privado. No entanto, os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025, divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) em janeiro de 2026, revelaram uma realidade alarmante: 13.871 formandos em medicina provêm de faculdades com notas 1 e 2, consideradas insuficientes e críticas pela metodologia do MEC.
Esses números lançam luz sobre um problema estrutural no ensino médico brasileiro, com sérias implicações para a qualidade do atendimento médico e para a segurança da população. O Conselho Federal de Medicina (CFM) tem alertado há anos sobre essa realidade, que agora se confirma nos dados do Enamed.
O impacto da avaliação do Enamed para a formação médica
O Enamed é uma prova anual que avalia o desempenho dos estudantes de medicina no Brasil. Em 2025, 39.256 concluintes participaram da avaliação, e os resultados mostram que cerca de 30% dos graduandos estão se formando em cursos considerados de qualidade insatisfatória, com notas 1 (crítica) e 2 (insuficiente). Esses dados revelam que, de 350 cursos avaliados, 107 estão com nível crítico e outros 80 cursos atingem apenas critérios minimamente aceitáveis.
O que significam as notas 1 e 2?
- Nota 1 (conceito crítico): indica que o curso não atende aos padrões básicos de qualidade exigidos, com falhas graves em sua infraestrutura, currículo, práticas de ensino e formação clínica.
- Nota 2 (conceito insuficiente): aponta que o curso não oferece a qualidade mínima necessária, embora alguns aspectos possam ser aceitáveis, mas ainda com várias deficiências.
Esses cursos têm um número significativo de formandos, o que gera preocupações com a capacidade desses profissionais em atender à população com competência.
As faculdades com pior desempenho e o risco para a saúde pública
De acordo com os dados, as faculdades que obtiveram as notas mais baixas estão concentradas em sua maioria no setor privado, com 17 faculdades particulares recebendo a nota 1 e 72 faculdades particulares recebendo a nota 2. Esse desempenho mostra que, apesar do aumento no número de vagas e de faculdades, a qualidade do ensino médico não tem acompanhado esse crescimento. A falta de infraestrutura, o ensino superficial e a escassez de campo de prática adequada são alguns dos fatores que resultam nessas notas insatisfatórias.
Distribuição geográfica das faculdades com notas baixas
Os estados que concentram o maior número de faculdades com notas 1 e 2 são:
- São Paulo, com 23 cursos e 3.437 formandos
- Bahia, com 12 cursos e 1.396 formandos
- Minas Gerais, com 12 cursos e 1.307 formandos
- Rio de Janeiro, com 10 cursos e 1.353 formandos
Esses números indicam que as regiões com maior número de faculdades de medicina privadas também são as que apresentam as maiores lacunas na formação médica.
O alerta do CFM: a necessidade de uma formação médica de qualidade
O presidente do CFM, José Hiran Gallo, declarou que o resultado do Enamed é um alerta claro sobre a qualidade da formação médica no Brasil. De acordo com Gallo, quando mais de um terço dos egressos de medicina têm um desempenho considerado insuficiente pelo MEC, estamos diante de um problema estrutural grave. Ele destaca que esses 13.871 formandos serão médicos registrados e poderão atender a população, embora não tenham a competência mínima necessária para isso.
O CFM, assim como o MEC, defende que todos os cursos de medicina no Brasil devem atingir, pelo menos, a nota 4, o que indicaria um desempenho satisfatório de 75% dos alunos. Gallo reforçou que a falta de qualidade na formação coloca em risco a saúde e a segurança de milhões de brasileiros.
O papel do Enamed e a necessidade do Profimed
O Enamed tem um papel essencial ao identificar falhas no sistema educacional médico e servir como ferramenta de monitoramento. Contudo, o CFM também reforçou a necessidade de mais ações para garantir a qualidade da formação médica. Nesse contexto, a proposta do Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed) surge como uma solução para garantir que, ao final da graduação, todos os médicos tenham os conhecimentos necessários para atuar de maneira eficaz e segura.
O Profimed, que está sendo discutido no Congresso Nacional, obrigaria todos os egressos de cursos de medicina a passarem por uma avaliação de proficiência para a concessão do registro profissional. Essa iniciativa visa garantir que apenas médicos devidamente capacitados possam atuar, evitando que formandos de faculdades com qualidade insatisfatória sejam liberados para o mercado de trabalho sem a devida qualificação.
O futuro da medicina no Brasil e os desafios da formação
O Brasil precisa urgentemente reformar seu sistema de ensino médico para garantir que todos os médicos que se formem no país sejam capazes de oferecer cuidados de qualidade à população. O desempenho insatisfatório de tantos cursos no Enamed revela que a expansão da educação médica foi feita sem a devida qualidade e estratégia.
A qualificação do ensino médico deve ser uma prioridade para garantir que os futuros médicos estejam adequadamente preparados para enfrentar os desafios da profissão e contribuir efetivamente para o sistema de saúde pública, especialmente com o Sistema Único de Saúde (SUS).
O CFM continua a defender uma formação médica de qualidade como direito da população e dos profissionais. O fortalecimento da fiscalização, a imposição de critérios rigorosos para a abertura de novas faculdades e a implementação do Profimed são passos essenciais para melhorar o ensino e garantir a segurança do paciente no Brasil.
Conclusão
Os resultados do Enamed 2025 são um reflexo da qualidade insuficiente da formação médica em uma parte significativa dos cursos de medicina no Brasil. As punições impostas às faculdades com desempenho insatisfatório são uma tentativa de corrigir essas falhas, mas a mudança de fundo requer reformas profundas no ensino médico.
Garantir que todos os médicos tenham a competência necessária para atender a população de forma eficaz deve ser uma prioridade nacional. O CFM e outras entidades da área da saúde continuam a lutar por um sistema de ensino médico que seja rigoroso, ético e acessível, protegendo tanto os pacientes quanto os profissionais da saúde.